Biografias dos Grandes Lamas
Sakyapas
Sua Eminência Chogye
Trichen Rinpoche
(1920-2007)

S.E. Chogye Trichen Rinpoche, Ngawang Khyenrab Thupten Lekshe
Gyatso, foi o chefe do ramo Tsarpa da tradição Sakya do
budismo tibetano. Como o lama sakyapa mais sênior dos últimos anos,
Rinpoche foi um mestre tântrico renomado, um praticante dedicado,
um erudito proeminente e um poeta eloqüente. Rinpoche
corporificava a sabedoria, o espírito e as atividades do Dharma
sagrado.
Rinpoche foi um mestre dos mestres, pois a maioria dos detentores
de linhagem do budismo tibetano foram seus discípulos. Entre estes
discípulos estão S.S. o Dalai Lama e
S.S. Sakya
Trizin. Talvez possamos começar a compreender a grandeza do
Rinpoche através das palavras de S.S. Sakya Trizin, que descreve as
grandes realizações do Rinpoche do seguinte modo:
Existem muitos que alcançaram a sabedoria a partir do estudo das
escrituras. Há alguns que atingiram a sabedoria a partir da
contemplação do Dharma. Há poucos que ganharam a sabedoria a partir da
meditação.
Sua Eminência Chogye Trichen Rinpoche alcançou todas as três
sabedorias. Devemos nos considerar afortunados apenas por encontrá-lo
o que é por si só uma grande benção.
Além da estatura do Rinpoche entre os lamas tibetanos, o rei Birendra do Nepal concedeu a
Rinpoche o Gorkha Dakshin Babu,
um tributo que até então nunca tinha sido concedido no Nepal a um
monge budista.
Breve história
Rinpoche nasceu em 1920 na abençoada família Zhalu Kushang
do clã Che, uma linhagem descendente dos deuses da clara luz. Muitos
sinais auspiciosos e maravilhosos acompanharam o nascimento do
Rinpoche.
Rinpoche foi o 26º patriarca do monastério P'henpo Nalendra ao
norte de Lhasa. Fundado por Rongtön Sheja Künrig (1367-1449), Nalendra
é um dos monastérios Sakya mais importantes do Tibet. De forma
esplendorosa, cada geração da família Kushang não produziu menos
do que quatro filhos, a maioria dos quais serviu como detentores do
trono de muitos monastérios importantes incluindo Nalendra, Zhalu e
Ngor. O nome Kushang significa "tio materno real" e deriva do
fato que muitas das mulheres da família foram casadas com vários
detentores do trono Sakya, um dos quais, Drogön Chagna, que foi
supremo mandatário do Tibet, secedeu Chögyal P'hakpa. Aos doze anos,
Rinpoche foi oficialmente entronizado no Monastério P'henpo
Nalendra.
Da sua entronização até os 39 anos, Rinpoche permaneceu no
monastério P'henpo Nalendra onde dominou os rituais escriturais
monásticos, os rituais de Mandala e o acompanhamento musical dos
rituais. Rinpoche completou retiros de meditação de todas as
principais deidades e todos os quatro tantras. Os dois gurus raiz do
Rinpoche são Zimog Rinpoche Künga Tenzin e Dampa Rinpoche
Shenp'hen Nyingpo do monastério Ngor. Deles, Rinpoche recebeu as
autorizações e as instruções do Lamdre, além de outras
incontáveis autorizações, transmissões, instruções centrais, e
tradições ritualísticas de todas as quatro classes do tantra. Rinpoche completou estudos extensivos em todos os campos principais
de aprendizado ministrados nos ensinamentos do Buddha. Rinpoche é
um mestre nos ensinamentos Sutrayana e Mantrayana. Rinpoche
também é um grande erudito em literatura, poesia, história e
metafísica budista e um poeta altamente realizado.
Em 1959, devido às mudanças nas circunstâncias no Tibet após a invasão
chinesa, Rinpoche saiu de Tibet e foi para Mustang, onde sua irmã
era casada com o rajá de Mustang, o rei de Mustang. Durante vários
anos desde 1962, de acordo com o desejo de S.S. o Dalai Lama, Rinpoche exerceu o cargo de Secretário Geral do Conselho para
Assuntos Religiosos e Culturais do governo tibetano no exílio em
Dharamsala, Índia. Rinpoche teve também um papel preponderante na
preparação do manuscrito do livro de S.S. o Dalai Lama Minha
Terra e Meu Povo e foi responsável por escrever livros texto
tibetanos para as escolas estabelecidas para os tibetanos centrais.
Em 1969, Rinpoche se licenciou do governo tibetano e retornou ao
Nepal para reconstruir o monastério Nalendra e assumir o trono da
escola Tsarpa no exílio. Rinpoche fundou dois monastérios no
Nepal, o monastério Tashi Rabten Ling em Lumbini, local de nascimento
do Buddha, e o monastério Jamchen Lhakhang em Katmandu. Em Lumbini,
Rinpoche estabeleceu o primeiro centro de retiro de três anos e
meio, Lamdre Lobshe, que inspirou a fundação de outros centros de
retiro de meditação ou Gomdra. Um local menor para retiros foi
estabelecido também pelo Rinpoche em Bagdora, um local sagrado
atribuído a Krakucchanda, um do Buddhas de eras anteriores. Rinpoche fundou também um centro do retiro Tsarpa em Lo Gekar em
Mustang.
Fora de Nepal, Rinpoche estabeleceu centros em Hong Kong e em
Taiwan. O nome do centro em Hong Kong é uma homenagem a Tara Verde.
Com os sinceros convites de seus discípulos, Rinpoche viajou para
esses centros para dar ensinamentos e iniciações. Rinpoche também
foi o chefe de dez centros na Austrália e na Nova Zelândia fundados
por seu discípulo, Lama Choedak. Como dois
dos centros principais na Austrália são nomeados em homenagem a
Rongtön e Tsharchen, Rinpoche considerava-os como os futuros
pilares da manutenção dos seus ensinamentos e práticas. Em
reconhecimento a estes desenvolvimentos, Rinpoche fez duas
visitas importantes à Austrália em 1996 e em 2001.
O nome Chogye Trichen
Acredita-se que o nome Chogye deriva da data de aniversário de
Khyenrab Chöje, um membro da família Kushang, e de um tributo
oferecido pelo então imperador chinês ao seu sobrinho. Khyenrab Chöje
era um professor que detinha a linhagem direta de Kalachakra recebida
de Vajrayogini e foi convidado pelo Sakya Trizin Dagchen Lodrö
Gyaltsen para ser o 8º abade do monastério P'henpo Nalendra.
Durante sua época, Kyenrab Chöje causou forte impressão ao imperador da
China. Embora Khyenrab Chöje fosse incapaz de visitar a China, seu
sobrinho Jamyang Donyö Gyalsten visitou esse país e se tornou o
preceptor espiritual do imperador. Inspirado pelas qualidades de
Jamyang Donyö Gyalsten, o imperador o presenteou com dezoito tributos
preciosos como elogio às qualidades que reconheceu neste mestre.
Decorre daí o nome Chogye que significa "dezoito" em tibetano.
É a partir de Kyenrab Chöje que começou a linhagem dos Chogye Trichens,
todos os quais vieram da família do Rinpoche. O título Trichen
significa "detentor do trono" e se refere àquele que detém o trono e o
título Chogye Trichen.
Praticante fiel
Diz-se
freqüentemente que o Rinpoche mantinha o estilo de um yogi recluso,
uma vez que participou de diversos retiros de meditação de três anos.
Fora destes retiros, Rinpoche passou a maior parte do tempo em
meditação profunda e na prática de rituais tântricos e orações, desde
as primeiras horas do alvorecer até muitas horas após a meia-noite.
Rinpoche era considerado como a manifestação moderna dos santos e
praticantes budistas indianos do passado, tais como o
Mahasiddha Virupa. Rinpoche continuou
esta prática muito admirável a cada dia. Isto por si só já era uma
inspiração para todos os praticantes.
Girando as rodas do Dharma
Rinpoche deu continuamente iniciações, transmissões, permissões,
ensinamentos e instruções sobre os ensinamentos de Buddha. Aqueles que
tiveram a fortuna de ter uma audiência com Rinpoche sem dúvida
concordarão que ele também foi um entusiástico contador de estórias.
Cada iniciação ou autorização dada pelo Rinpoche era quase sempre
acompanhada por estórias preciosas sobre os Bodhisattvas ou mestres
específicos da linhagem, da mesma forma que por estórias que ilustram
a importância da Bodhichitta e de outros inestimáveis ensinamentos do
Buddha, como o Prajnaparamita. Rinpoche foi o detentor da
linhagem dos ensinamentos esotéricos incomuns altamente valiosos da
prática de linhagem da escola Tsarpa, como Vajrayogini e
Lamdre Lobshe, da tradição incomum de Hevajra para os
discípulos próximos.
Foi através da bondade do Rinpoche que seus discípulos realizaram
os ensinamentos do Buddha. Desde o seu tempo no Tibet até hoje,
Rinpoche continuou a disseminar o Dharma sagrado e fazer com que este
floresça nas mentes de todos que têm fé no budismo. Sua atividade é
evidência de seus esforços contínuos e altruísticos de ensinar o
Dharma sagrado. Rinpoche permaneceu firmemente
comprometido com sua missão de difundir os ensinamentos de Buddha para
o benefício de todos os seres sencientes onde quer que estejam, apesar
dos ensinamentos longos, especialmente aqueles conduzidos em outros
países, inevitavelmente produzirem fatiga e forte tensão ao seu corpo
físico.

S.S. o Dalai Lama recebendo iniciações de S.E. Chogye Trichen Rinpoche
Como exemplos de sua atividade, Rinpoche concedeu iniciações,
transmissões, instruções e comentários maiores e menores com
instruções centrais orais. Rinpoche ofereceu ainda os
ensinamentos profundos e incomuns da tradição Sakya, particularmente o
Lamdre Lobshe incomum de acordo com a tradição Tsarpa, para
S.S. Sakya Trizin e
S.S. o Dalai Lama. Além disso, Rinpoche ofereceu também suas principais linhagens à
S.S.
Sakya Trizin, tais como a Coleção de Tantras (Gyüde Küntü)
e as permissões e transmissão das instruções centrais. Muitos outros
Rinpoches, monges e discípulos leigos de todo mundo também foram
bastante afortunados para receber ensinamentos, iniciações e
autorizações do Rinpoche.
O compromisso do Rinpoche em divulgar o Dharma sagrado não tinha
limite geográfico e era verdadeiramente global. Isto é evidente pelas
numerosas viagens do Rinpoche para outros países com o intuito de
dar ensinamentos, iniciações e autorizações a seus discípulos. Por
exemplo, em 1988, Rinpoche viajou para os EUA e Canadá. Em 1994,
Rinpoche ensinou no Japão e em 1996, Rinpoche visitou a
Austrália. Em 1998, Rinpoche visitou a Singapura, Malásia, Hong
Kong e Austrália para dar muitas iniciações e ensinamentos. No mesmo
ano, Rinpoche concedeu a iniciação de Kalachakra e outros
ensinamentos em Taiwan para uma assembléia de 6.000 discípulos. No ano
2000, Rinpoche visitou a França onde concedeu a Coleção de
Sadhanas. No mesmo ano, a pedido dos centros Sakya na Espanha,
Rinpoche visitou este país onde deu a iniciação de Kalachakra e
palestras públicas em Barcelona sobre a paz no mundo de acordo com o
Kalachakra Tantra.
Mais recentemente, Rinpoche completou uma viagem de
dois meses para Hong Kong, Taiwan, Canberra, Sydney, Melbourne,
Adelaide, Brisbane, Nova Zelândia, Singapura e Kuching na Malásia,
onde conferiu a seus discípulos preciosos ensinamentos e iniciações de
muitos Buddhas e Bodhisattvas importantes. Na Austrália, durante sua
recente viagem, Rinpoche acrescentou um novo capítulo à história
do budismo neste país ordenando doze monges e monjas australianos, da
mesma maneira que Shantarakshita fez no século VII no Tibet quando
ordenou sete tibetanos. O efeito propagador da visita do Rinpoche
a Austrália será sentido ainda por muitas centenas de anos.
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