Ensinamentos da Tradição Sakya

A oração de aspiração do Mahamudra, o significado definitivo 
 
Composto pelo 3º Karmapa Rangchung Dorje Gyalwang

 

 
Namo Guru 
 
Gurus, yidams e deidades da mandala,

Budas das dez direções e três tempos e seus filhos espirituais,

Considere-me compassivamente e deem suas bênçãos

Para que se cumpram minhas aspirações tal como são. 
 
Que os rios de virtudes minhas e de todos os infinitos seres,

Que surgem do pico nevado de intenção e ação puras,

Livres das contaminações das três esferas,

Fluam no oceano das quatro dimensões de Buda. 
 
Até não cumprirmos isso,

Através de todas as minhas vidas, nascimento após nascimento,

Não possam ser ouvidas nem sequer as palavras “negatividade” e “sofrimento”,

E desfrutemos do esplendor do oceano de felicidade e virtude. 
 
Tendo obtido a suprema liberdade e conjunções da preciosa existência humana, adornada com fé, perseverança e diligência, Tendo seguido um bom guia espiritual e recebido as sagradas instruções essenciais,

Possamos nós praticá-las corretamente sem obstáculos

E em todas as nossas vidas possamos nós praticar e desfrutar do sagrado Dharma. 
 
Estudar e ouvir as escrituras e sua lógica nos libera do véu da ignorância

Contemplar as instruções orais dispersa a escuridão da dúvida.

A luz que emana da meditação ilumina o estado natural tal como é.

Que a luminosidade desses três conhecimentos aumente. 
 
Pela compreensão do significado da base, que são as duas verdades livres dos extremos do eternalismo e do niilismo

E pela prática do supremo caminho das duas acumulações, livres do exagero e da negação,

Alcançamos o fruto do bem-estar para nós próprios e para os outros, livre dos extremos do samsara e do nirvana.

Possam todos os seres encontrar o dharma que não erra nem engana. 
 
A base da purificação é a própria mente, a união da vacuidade e da clara luz.

Que é purificada pela vasta yoga do Mahamudra.

O que são para ser purificados são as temporárias contaminações das confusões adventícias.

Possa o fruto da purificação, o dharmakaya não manchado, ser manifesto. 
 
Resolver as dúvidas sobre a base traz convicção na visão.

Conservar a consciência sem distração, de acordo com essa visão, é a sutil essência da meditação.

Colocar todos os aspectos da meditação em prática é a suprema ação.

Que alcancemos a confiança da visão, meditação e conduta. 
 
Todos os fenômenos são manifestações ilusórias da mente.

A mente não é mente – a natureza da mente é vazia de qualquer entidade intrínseca.

Sendo vazia, ela é incessante e desimpedida, manifestando qualquer coisa que puder.

Examinando profundamente, possa todas as dúvidas da base ser discernidas e cortadas. 
 
Confundidos, tomamos por objeto o que é a nossa própria percepção, que nunca realmente existiu

E dominados pela ignorância, confundimos nossa auto-cognição pelo ego.

Por essa fixação dualista, nós vagueamos nos reinos da existência samsárica.

Possa a ignorância, raiz da confusão, ser descoberta e cortada. 
 
Não é existente, nem os budas a vêem.

Não é inexistente, é a base do samsara e do nirvana.

Isto não é uma contradição, mas o caminho do meio da unidade.

Possa a natureza última dos fenômenos, mente sem limite, além dos extremos, ser realizada. 
 
Se dizemos: “é isto”. Nada se pode mostrar.

Se dizemos: “não é isto”.Nada se pode negar.

Esta realidade absoluta, que transcende a compreensão conceitual, é incondicionada.

Que tenhamos profunda convicção neste nível absoluto perfeito. 
 
Se não realizamos isso, damos voltas no oceano do samsara.

Quando realizamos, a budeidade não é outra coisa que isso.

Isso é completamente desprovido de atributos de ser isso ou aquilo.

Possa esse simples segredo, essa essência última dos fenômenos, que é a base de tudo, ser realizada. 
 
Aparências são mente e vacuidade também é mente.

Realização é mente e confusão também é mente.

Originação é mente e cessação também é mente.

Possam todas as dúvidas sobre a mente serem resolvidas. 
 
Sem contaminá-lo com esforço conceitual ou meditação criada mentalmente

E sem perturbá-lo pelos ventos das distrações comuns,

Sabendo descansar no sincero fluir natural,

Que sejamos hábeis em sustentar a prática de descansar na verdadeira natureza da mente. 
 
As hordas do pensamento sutis e grosseiros se apaziguam em seu próprio lugar

E as águas imóveis da mente descansam naturalmente.

Livre do embotamento, torpor e obscurecimentos, Possa o oceano de shamatha ser estável e imóvel. 
 
Ao ver repetidamente a mente que não se pode ver,

O significado que não pode ser visto é vividamente visto, assim como é.

Contando-se assim as dúvidas acerca de como é ou não é,

Possa a natureza genuína não confusa ser conhecida por si própria. 
 
Observando objetos, a mente livre de objetos é vista,

Observando a mente, não há mente – está vazia de natureza inerente,

Observando ambos, apego a dualidade é liberada em si própria.

Que realizemos a luminosa natureza da mente. 
 
Livre da fabricação mental, este é o grande selo, mahamudra.

Livre dos extremos, este é o grande caminho do meio, madhyamika.

A consumação de tudo, assim é chamada a grande perfeição, dzogchen.

Possamos ter confiança que pelo entendimento de um, a essência do significado de todos é realizado. 
 
Grande êxtase livre de apegos é incessante.

Luminosidade livre de fixação em características é desobscurecida.

Não-pensamento que transcende a mente conceitual é naturalmente presente.

Que essas experiências livres de esforço sejam contínuas. 
 
A fixação de apegar-se a “boas” experiências se libera por si mesma.

Pensamentos negativos e confusão naturalmente se purificam no espaço absoluto.

A mente natural está livre da rejeição e aceitação, perda e ganho.

Possa a simplicidade, a verdadeira essência última de tudo, ser realizada. 
  
A natureza dos seres é sempre o estado búdico.

Mas, por não realizá-lo, vagueiam no samsara sem fim.

Pelo sofrimento sem fim dos seres sencientes,

Possa compaixão incomensurável ser concebida em nosso ser. 
 
Quando a energia da compaixão incontida é incessante,

Na expressão do amor bondoso, a verdade da vacuidade essencial é desnudada.

Que constantemente pratiquemos dia e noite

Neste supremo caminho de união, livre de erros. 
 
Os olhos e percepções sobrenaturais surgem do poder da meditação.

Seres sencientes são amadurecidos e terras búdicas são completamente purificadas.

Realizam-se totalmente as aspirações para realizar as qualidades búdicas.

Que completando a consumação, o amadurecimento e a purificação, alcancemos a budeidade. 
 
Que pelo poder da compaixão dos vitoriosos das dez direções e seus filhos e filhas espirituais

E pelo poder de toda virtude pura que exista,

Possa a pura aspiração minha e de todos os seres sencientes

Ser realizada exatamente como aspiramos.