Mahasiddha Virupa

A história de Mahasiddha Virupa

 

Mahasiddha Virupa, o Senhor de todos os Yogues, nasceu em uma família real no leste da Índia durante o século VII a VIII. Já adulto, renunciou à vida de príncipe para se tornar um monástico. Ordenou-se com o abade Vinayadeva e o professor Jayakirti, no templo de Somapuri, na Índia. Construiu um pequeno templo de pedra cheio de representações da Jóia Tripla, que purificava os obscurecimentos de seus pais.

 

Universidade de Nalanda

A Universidade Shri Nalanda era a instituição de ensino mais famosa da época, com profundos estudos sobre todas as quatro escolas de filosofia budista. Virupa entrou na universidade e recebeu do abade Dharmamitri, os votos completos de ordenação da escola Mulasarvastivada. Seu nome de ordenação foi Shri Dharmapala, e recebeu do Abade, as instruções de Chakrasamvara. Ele se aprofundou em um imenso conhecimento sobre escolas budistas e não budistas. Seu abade entrou no parinirvana e Virupa foi entronizado como o grande abade de todos os panditas da Universidade de Nalanda.

 

Mahasiddha Virupa

Virupa manteve a prática Chakrasamvara à noite, e durante o dia ensinava o Sutrayana, debatendo e compondo textos do Dharma. Praticou dessa forma por muitos anos, sem obter sinais ou realizações. Pelo contrário, encontrou muitas circunstâncias difíceis e infelizes, o que fez com que ficasse muito desanimado com sua prática.

 

Acreditando que não tinha nenhuma ligação com o secreto Mantrayana nesta vida, decidiu usar seu tempo exclusivamente no estudo e contemplação do veículo comum. Jurou que, a partir daquele momento, não ensinaria o Dharma, nem escreveria textos do Dharma, nem faria nenhuma prática de yidam. No dia 22 do quarto mês lunar da primavera (Vesak), jogou seu mala no vaso sanitário, como símbolo de seu abandono da prática e sua intenção de relaxar.

 

Naquela mesma noite, em um sonho, ele viu Nairatmaya como uma dama azul, que lhe disse: " Nobre filho, por favor, não se comporte com essa conduta imprópria. Por favor, recupere seu mala, lave-o em água perfumada, reconheça seu erro, comprometa-se a não repeti-lo novamente e, a partir de agora, mantenha a prática corretamente ". Ela continuou dizendo: "Eu sou a divindade com quem você tem um vínculo cármico. Estou lhe concedendo bênçãos para que rapidamente, você consiga realizações". Ela então desapareceu.

 

Realizações

Quando acordou na manhã seguinte, Virupa sentiu um grande pesar. No 23º dia do mês lunar, ele recuperou seu mala e seguiu as instruções dadas em seu sonho. Naquela noite, ele compreendeu a sabedoria primordial, na forma da mandala das quinze deusas da manifestação Nirmanakaya de Nairatmaya. Os quatro poderes foram completamente concedidos, e ele alcançou o resultado da conquista do primeiro bhumi (estágio de iluminação) naquela mesma noite.

 

Nas seis noites consecutivas, Virupa alcançou crescentes realizações e, na sétima noite, no 29º dia do mês lunar, realizou o sexto bhumi, obtendo bênçãosnos quatro aspectos daquela linhagem sussurrada.

 

  • Por ter recebido os quatro poderes completos, de uma linhagem ininterrupta, o fluxo de iniciação não se esgotou.

  • Em segundo lugar, por ter alcançado a realização do primeiro ao sexto bhumis, o fluxo de bênçãos não diminuiu.

  • Terceiro, ele compreendeu perfeitamente, que todos os seus infortúnios anteriores eram na verdade sinais do calor de Samadhi no caminho da aplicação. Assim, as instruções não foram interrompidas.

  • Quarto, ele conquistou a profunda confiança, de que sua realização era igual à do Buda, e atendeu completamente a todas as suas aspirações.

 

Comportamento estranho

Depois disso, o comportamento de Virupa mudou. Rumores se espalharam pelo mosteiro, de que ele estava comendo carne e tomando intoxicantes. Alguns monges que o espionavam viram quinze, e outro monge viu cem mulheres em seu quarto, mas outros só viram quinze ou cem velas. Portanto, houve considerável controvérsia. No entanto, ele ainda era o Grande Abade da Universidade de Nalanda, e ninguém teve coragem de falar.

 

A fim de impedir que os outros desprezassem o Buddhadharma, ele reconheceu seus erros, saiu sua residência, e ofereceu suas vestes e a tigela de esmolas à Jóia Tripla. Completamente nu, dizendo que era feio, assumiu o nome de Virupa, o feio. A partir daí, começou a se comportar de maneira estranha. Passou a pedir aos floristas, flores para fazer guirlandas para sua cabeça, comprava rabanetes e os segurava nas mãos e os mantinha pendendo na boca. Começou a frequentar bares e bordéis, com comportamentos que chocavam a todos.

 

O tambor do Dharma soou no mosteiro para reunir todos os monges. Declararou-se que Virupa deveria deixar o mosteiro e não retornar. Virupa fez uma canção poética para beneficiar o Buddhadharma e remover o preconceito dos seres. Aceitou seus erros e caminhou em direção a Varanasi, atravessando o rio Ganges.

 

Reconhecimento

Ao chegar às margens do Ganges, disse ao rio: "Eu sou uma pessoa má, não quero poluir você, por favor, me dê um caminho". O rio se abriu e ele atravessou sem dificuldade. Outros, que o haviam seguido, viram isso e perceberam suas qualidades iluminadas. Com isso, muitas pessoas se arrependeram da rejeição em relação a ele, e se puseram a seus pés, pedindo que retornasse ao mosteiro. Ele aceitou o arrependimento deles, mas não concordou em voltar ao mosteiro.

 

Ao chegar a Varanasi, Virupa passou muito tempo na floresta. Ficou muito queimado pelo sol e desgastado pelo tempo. Algumas pessoas pensavam que ele era um yogi não-budista, enquanto outras pensavam que ele era budista. Govindacanda, o rei hindu que na época governava Varanasi, considerou que caso Virupa fosse hindu, ele iria convidá-lo para o palácio, mas se fosse budista, iria expulsá-lo do reino. Para que pudesse decidir o destino de Virupa, o rei ordenou que ele fosse levada ao palácio,

 

No caminho para o palácio, Virupa foi visto colocando na boca, todos os insetos e borboletas que encontrava. Isso fez com que as pessoas (e também os insetos em sua boca) o chamassem "Cruel, cruel iogue!". Virupa disse: "As pessoas que matam muitos animais são chamadas de 'Cruel, Cruel' e outras que resgatam seres, também são chamadas de 'Cruel, Cruel'. Isso mostra que vocês não entendem minhas ações". Na realidade, Virupa era um bodhisattva iluminado que não prejudicava nenhum ser, de nenhuma maneira. Ao contrário, ele libertava esses seres, e também estava mostrando a essas pessoas, como reconhecer sua própria crueldade, ao fazer sacrifícios de animais.

 

Ao encontra-lo, o rei lhe fez muitas perguntas, e Virupa permaneceu em silêncio. O rei disse que Virupa não tinha sinais de um iogue hindu e, portanto, ordenou que ele fosse amarrado e jogado no rio. Assim que foi jogado no rio, Virupa imediatamente reapareceu no palácio do rei. Tentaram destruí-lo muitas vezes, de diferentes maneiras, e a cada vez ele reaparecia. Como resultado, o rei compreendeu que Virupa era iluminado e reconheceu suas faltas. Surgiu nele uma devoção inabalável e todo o reino foi levado ao caminho do Vajrayana.

 

Muitos milagres, muitos discípulos

No caminho para o sul de Bhimesvara, Virupa chegou às margens do rio Ganges a fim de encontrar uma pessoa com quem tinha um vínculo cármico. Pediu ao barqueiro para atravessar o rio, e ele lhe pediu para pagar o pedágio. Virupa disse que iria satisfazer o pedido do barqueiro, e perguntou se ele queria que o rio fosse maior ou menor?

 

O barqueiro respondeu que preferia que o rio fosse menor. Virupa apontou o dedo indicador para o rio, que imediatamente se transformou. As casas nas margens começaram a diminuir, e a montante, o rio começou a inundar, o que assustou muitas pessoas. O barqueiro apontou para Virupa como o causador de tudo isso.

 

A população local trouxe muitas oferendas de gado, colheitas, ouro, joias e implorou a Virupa que parasse. Virupa estalou os dedos e imediatamente o rio começou a fluir normalmente. Todas aquelas oferendas, Virupa deu ao barqueiro, que se recusou a aceita-las, e sentindo forte devoção, caiu aos seus pés, implorando para ser aceito como aluno. Virupa devolveu todas as oferendas para a população local, e tudo voltou ao normal. O barqueiro ficou conhecido como Dombi Heruka, um dos dois principais discípulos de Virupa.

 

Virupa continuou sua jornada para Bhimesvara, no sul da Índia, em um lugar chamado Dakinitapa, onde entrou em uma loja de vinhos, de propriedade de uma rapariga, Karmarupasiddhi. Ele e seu discípulo Dombi pediram vinho, e ela pediu o pagamento. Virupa disse que, uma vez atendido, a rapariga conseguiria o que quisesse. Ela não acreditou nele e perguntou novamente quando seria paga. Virupa desenhou uma linha no chão e disse que quando a sombra chegasse à linha, ele pagaria imediatamente.

 

Virupa havia parado o sol. Ele começou a beber sem pressa e continuou a beber até todo o vinho na loja ser consumido. A rapariga queria novamente saber, quando seria paga, mas Virupa repetiu que a sombra ainda não havia chegado à linha. Virupa continuou a beber até que todo o vinho das dezoito cidades próximas tivesse sido bebido!!

 

Quando isso ocorreu, os astrólogos do rei ficaram confusos; a contagem do tempo das rotinas diárias tinha sido interrompida; as pessoas não conseguiam lidar com a falta de sono. Houve um caos generalizado. O rei percebeu que isso havia sido causado pelo poder milagroso de Virupa e pediu urgentemente que ele liberasse o sol.

 

Virupa explicou que não tinha dinheiro para pagar a rapariga. O rei concordou em pagar a mulher, e assim, Virupa liberou o sol, que se pôs imediatamente. Era meia-noite do terceiro dia, desde que esses eventos haviam começado. E dessa maneira, Virupa atraiu muitas pessoas para o caminho do Vajrayana.

 

Virupa, que continuava em Bhimesvara, havia parado o Ganges e também o sol, o que fez sua fama se espalhar por toda parte.

 

Prostrações para prajnaparamita

Ao chegar a Bhimesvara, Virupa foi visitar um templo não-budista, onde havia quinhentos saddhus de cabelos comprido. Virupa elogiou o rei, Narapati, em sânscrito. O rei ficou muito impressionado com sua erudição, e o nomeou como o chefe dos quinhentos iogues. Virupa manteve sua prática pessoal, fazendo oferendas e prostrações aos textos prajnaparamita, e não aos deuses mundanos que os iogues reverenciavam. Isso gerou alguma controvérsia, pois Virupa não estava praticando de acordo com a tradição deles, e isso foi comunicado ao rei.

 

A princípio, o rei não acreditou nos iogues, acreditando que estavam com ciúmes, pois seria impossível para um grande estudioso de sânscrito, não prestar respeito aos seus deuses. Sendo assim, o rei os ignorou. Depois de repetidas queixas dos iogues, o rei começou a ter dúvidas sobre Virupa, e convocou todos os iogues ao templo, pedindo que cada um deles se prostrasse à imagem dos deuses.

 

Todos os iogues se prostraram como esperado, exceto Virupa, que continuou a se prostrar aos textos prajnaparamita. O rei disse que sendo o mais alto dos deuses do reino dos desejos, Virupa deveria prestar respeito. O rei exigiu que Virupa se prostrasse ao seu deus, mas Virupa disse que não poderia.

 

Dirigindo-se à estátua daquele deus, Virupa disse: "Este rei pecador me forçou a me prostrar a você, por favor, mostre-me sua tolerância". Virupa então manteve as palmas das mãos juntas na testa recitando "Namo Buddhaya", e imediatamente um terço da estátua rachou! Então, ele colocou as mãos na garganta recitando "Namo Dharmaya", e imediatamente dois terços da estátua se quebraram! Em seguida, Virupa colocou as mãos no coração e recitou "Namo Sangaya", e imediatamente a rachadura se estendeu pelo comprimento da estátua. Virupa continuou a se prostar nas quatro direções e, ao fazê-lo, a estátua se partiu em quatro pedaços.

 

O rei, e todo o séquito, ficaram muito assustados. Caíram aos pés de Virupa, pedindo que não continuasse. Virupa então, recolheu os quatro pedaços e a estátua se recuperou da forma como era anteriormente. Virupa colocou uma estátua de Avalokitesvara, feita de pedra negra, na cabeça da estátua daquele deus, e pediu a todos que se prostrassem e a circuncidassem. Aconselhou-os dizendo que, se não prestassem o devido respeito a esta estátua, ela não duraria. Como resultado desse milagre, muitas pessoas começaram a colocar imagens de Buda no topo das cabeças de suas estátuas de deuses mundanos.

 

Dessa maneira, Virupa demonstrou que prostrar-se aos deuses mundanos pode ser mais prejudicial do que positivo. Ele era um bodhisattva iluminado no sexto bhumi, cujo nível supera o poder dos deuses mundanos.

 

No caminho do Dharma

Virupa continuou seguindo para o sul. Entre os 500 saddhus em Bhimesvara estava Kanha, que o seguiu e mais tarde se tornaria o segundo principal discípulo de Virupa, Krishnapa. De fato, Virupa foi até lá para encontrar Krishnapa e trazer esses saddhus para o Buddhadharma.

 

No sul da Índia, havia um lugar com uma estátua feita de madeira vermelha, onde, todos os dias, centenas de búfalos eram mortos e usados ​​como oferendas aos deuses do mundo. Virupa chutou a estátua e pediu que a divindade fosse embora. Imediatamente, a estátua se levantou e Virupa o afastou. Todos os seguidores da divindade ficaram assustados e imploraram que Virupa parasse. Virupa disse que se eles parassem de matar animais como sacrifícios, ele iria parar, mas se continuassem a matar seres inocentes, ele levaria essa divindade para longe. Dessa maneira, Virupa e seus dois seguidores, Dombi e Krishnapa, continuaram sua jornada juntos. Eles subjugaram muitos outros deuses mundanos e acabaram com a matança de animais em muitos lugares.

 

Virupa deu a Dombi, o barqueiro, a bênção da transmissão de toda a sua realização, e assim, Dombi obteve um entendimento igual ao de Virupa. Virupa enviou Dombi para o leste da Índia, onde ele subjugou muitos seres e os levou ao caminho do Dharma.

 

Krishnapa foi com Virupa a Karsapani para encontrar Avalokitesvara, onde realizaram muitas prostrações e prestaram grande respeito. Virupa explicou a Avalokitesvara tudo o que havia feito desde que se tornara monge até aquele dia, e ofereceu isso a Avalokitesvara para o benefício do Buddhadharma. Avalokitesvara explicou a Virupa: "Você tem grande poder e pode transformar o Monte Sumeru em cinzas! Todos os seres sencientes têm vários karmas que até o Buda acha difícil de dominar, por isso não cause dano aos seres sencientes e mostre-lhes grande compaixão".

 

Virupa viajou para Saurastra, no oeste da Índia, onde todos os dias milhares de animais eram sacrificados à divindade Somanatha. Seguindo o conselho de Avalokitesvara, Virupa fez com que parassem com esses sacrifícios, sem destruir sua estátua. Os devotos se comprometeram a fazer oferendas de arroz e outras que fossem inofensivas, no lugar dos animais.

 

A expansão do Vajrayana

Virupa construiu um templo com uma imagem de Buda e, embaixo desta estátua, colocava uma imagem de si mesmo. Ele desenvolveu uma comunidade monástica e pediu aos benfeitores que fizessem oferendas primeiramente ao Buda, depois à estátua, e em terceiro lugar aos seus próprios deuses mundanos. Disse que, se fizessem isso, ele não destruiria seu deus, e o deixaria ileso. A comunidade pediu que Virupa aceitasse suas oferendas e permanecesse ali enquanto Somanatha existisse. Virupa abençoou Krishnapa com os versos Vajra, levando-o ao mesmo nível de realização que ele mesmo atingira. Virupa pediu a Krishnapa que fosse ao mundo oriental para trazer todos os seres para o caminho Vajrayana.

 

Depois de concluir suas atividades em Saurastra, Virupa interrompeu temporariamente suas atividades e se dissolveu na estátua de pedra, Somanatha. Acredita-se que Virupa esteja naquele lugar até hoje, e seguem havendo muitos relatos de milagres que ali acontecem.

 

Perto deste templo, há uma estátua de Mahasiddha Virupa. Alguns dizem que é uma estátua e outros dizem que é o verdadeiro Mahasiddha Virupa. Ele está sentado em uma postura meditativa, com uma pedra filosofal na mão esquerda, que transforma metais comuns em ouro. Seu tamanho varia, tornando-se muito grande se não for respeitado, de modo que nem se pode ver a cabeça. Se é respeitado e são feitas oferendas, torna-se tão pequeno quanto um bebê, e todos os desejos são atendidos. Através da transformação em ouro, muitos seres foram tirados da pobreza.

 

Atual Universidade de Nalanda

 

Existem muitas histórias dos muitos milagres realizados por Virupa para atrair inúmeros seres ao caminho do Vajrayana. O Buddhadharma floresceu muito na Índia, e indiretamente no Tibete, como resultado das atividades de seus discípulos. Quase todas as tradições budistas encontradas no Tibete podem ser rastreadas através de linhagens originárias da Universidade de Nalanda. Entre os muitos professores e estudiosos preparados por esta instituição, Virupa é o principal.

 

Em toda a história do budismo, nunca houve outro mestre mostrando tanta destemor ao servir o Buddhadharma. De fato, é dito que existem três grandes mestres que se seguiram a Gautama Buda: o rei Ashoka, que governou o país e, através de seu poder, trouxe paz à terra e o florescimento do Dharma; Dharmakirti, que através de sua lógica, derrotou muitas visões heréticas; e Virupa, que através de sua disciplina iogue, subjugou muitos caminhos distorcidos e trouxe muitos seres para o Vajrayana.

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Fonte: Drogmi Buddhist Institute

* Traduzido para o português pelo Grupo Wisdom Ligth